domingo, 11 de julho de 2010

Breve descrição d´uma fome incontrolável

Anseio descrever-te os efeitos que me causas, jovem donzela, com intangibilidade tal de um amor trovadoresco. Ao ver teu corpo, quase que padeço em fome. Sinto-me reprimir os lábios em ação involuntária à doce visão que toma-me os olhos. Atiça-me as narinas, o perfume que oriunda de tua pele. Lembrar de tua anatomia faz-me enrigecer cada um dos músculos, impondo-me ofegante respiração. Minhas mãos, pálidas e desconexas, tremem ao prever o toque em teu dorso e percorrer tua forma esguia. Retraio-me os olhos como quem foge de um plano e, desesperadamente, anseia por encontrar um outro. Encontro-te, portanto, nua, mas apenas em minha mente. Tu me olhas fixamente, esperando que eu entenda cada um dos teus desejos. Desejos que habitam entre o mudo e o eloquente. Escolho pela mudez ao encostar minha mão em teu sexo, quando falha-me a voz, e logo em seguinte pela eloquência, quando utiliso-me da língua para descobrir toda a literatura camuflada em tão bela anatomia. Prazer maior não há que saciar-me as agonias do corpo diretamente da fonte onde nascem. Teus seios me são frutas silvestres propensos a alimentar-me a boca. E à medida que acalmam-se as ondas de minha maré, imediatamente preparo-me para que de ti eu padeça, mais uma vez, numa fome tão incontrolável que nem mesmos as grades do pensamento serão capazes de conter.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Camomila

Eu vejo teus olhos brilharem enquanto tu brincas com as pernas. Tua expressão é obvia porque tua boca é muda. Tu me falas da verdade com a cor desses castanhos que pendem das oliveiras e cheiram como mel. És doce, mas intensa. E deixas claro para que em ti não só aja afago ou cicatriz. O toque, mesmo que leve, em tua pele deve durar e o brusco, mesmo que rude, deve passar como passam as águas de um rio. Ainda olhas para mim e dizes que desejas fugir. Queria eu aprender a língua do teu semblante e perguntar-te o porquê, mas teu desejo é urgente e tuas urgências são literais. É um adeus. Deixo-te partir, partido. De tão passado, particípio. Não sei para onde fostes, nem que idade tens. Tampouco se tu existes, menina dos olhos. Metáfora da vida. Envelheço enquanto espero que tu voltes. Sou duas décadas mais velho, apenas velho. Não coube experiência em meus moídos. Eis a verdade: torna-se experiente quando torna-se evoluído. Eis o erro: parei de evoluir quando percebi que o laço vermelho que levavas na cabeça não sai de um casulo para tranformar-se em ti. Laço. Vermelho. Só. Até que me acostumo com a presença da ausência. O único problema é que ela é cheia de obrigações e te força a cavar da terra infértil pra que nasça flor. Então eu cavo, cavo... e lá no fundo compreendo e compartilho de algum segredo que me é dito essencial : o que se aprende com a idade é que seguir pela contramão também é um modo de seguir. E o perder é uma etapa do encontrar. E o 'entregar-se loucamente' é a ironia para o ' prender-se ao chão '. Então tu caminhas rumo ao horizonte para descer ou subir esta e aquelas ladeiras. Caminhas só. Perdida. Louca. Entregue. Pela contramão. Os carros vão passar e a luz dos faróis vão cegar teus olhos, e são muitas luzes que andam de par em par. Mas ainda não é o teu farol. A essa altura tu não sabes mais o que é norte ou sul. Presumo que jamais soubestes. Pouco importa agora. Qualquer direção servirá para ti, que não sabe aonde ir. Qualquer calor será fogueira e qualquer afago será amor de pai. Mas tu não julgas nem ousas preferir. Tu segues porque, dos ensinamentos que te deram, o único que aprendestes foi andar. Tiro minha cabeça da cova infértil e sinto as décadas regredindo em meu corpo. É o entendimento dos caminhos tortuosos e do fluxo inevitável da vida, que é dinâmica. Queria que estivesses aqui. Vê: da fossa, flores.

terça-feira, 30 de março de 2010

Tua âncora

Sabe-se lá o que é que, de repete, faz engatar as engrenagens deste barco que é movido para longe do cáis. Tu sentas docemente entre as almas do teu refúgio e pensas que tua base é tão firme quando a decisão do teu coração em ficar. Mas não te esqueças que, em breve, entrarei por aquela porta como quem abre o teu destino, os teus mistérios e as tuas pernas. Tu serás minha novamente e a possessão do teu corpo é a certeza de que sou eu o domínio completo do peso da tua âncora. Entro agora e o a retiro em um sopro e tu voltas comigo para o meio do oceano, perdida. Lembra-te da sensação de como é estar distante do teu porto. Lembra-te de que minha segurança é segurar-te e assegurar-te o calor dos meus braços em meio a fúria de Poseidon. É aí, então, que domino o teu corpo cujos caminhos eu sei da cor e de cor, devido a tua constância. Sou eu quem mudo com a lua. Sou eu o marinheiro do tempo. Por isso é a ti que recorro quando as noites são solitárias e meus olhos, foscos, necessitam dos teus abrigos. Há possessão. Meu corpo sobreposto ao teu. Percebo que em ti combinam os tons avermelhados, que sobressaem à brancura da tua pele de seda, a qual não toco por partes pelo medo de calejar-te com a marca de meus rudes dedos. Olho-te enquanto não descubro o modo de possuir-te por inteiro, restando só a marca do teu vermelho que escorre como sangue e faz do meu corpo um sacrifício pagão da tua beleza, a deusa da minha idolatria. Semelhante ao absinto, bebo-te e sinto o quão quente é o teu gosto. Por isso escrevo meus versos em tua pele, em teus seios, em tua boca e me afogo em teu horizonte efervescente disfarçado em puro mármore. Depois que meu corpo se alimenta do teu, abraço-te forte e permito-te ir. Tu voltas, inerte, ao lançar da tua âncora. Voltas para morrer em tuas dúvidas, certa de que sentir - amar, o mar - é deveras imprudente. Tu sentarás novamente sob a sombra de tua falsa segurança, de tua falsa compreensão, de tua falsa certeza. Ficarás assim até que eu, marinheiro, volte. Afinal, sabe-se se lá o quê é que, de repente, faz engatar as engrenagens deste barco que é movido para longe do cáis.

domingo, 7 de março de 2010

00:27

Inquieto, vago pelo espaço. Toco a nuca, deslizo abruptamente os dedos pelas extremidades das orelhas enquanto miro a janela, distante e absorto. Dou passos que parecem não decifrar o comando cerebral: tortos, desrumados. Balanço as pernas e semicerro olhos e mãos, num princípio de desespero. Daí é quando decido que devo sentar e contar a mim mesmo essa estória, sem qualquer hipérbole literária ou efeito de dramaturgia. Sem ensaio. Começo falando sobre o tempo, que corre solto. Tic tac, e lá se vão os dias. Fogem como crianças malvadas. E prossigo com minhas necessidades urgentes, que, pelo caráter de urgentes, não podem ficar para trás. Megalomania de agora, um imediado imediato, irremediável. Balanço a perna. Estalo o pescoço. A luz do corredor brilha por debaixo da porta, sorrateira. Olho para o lado e me admira a ironia de haver uma calculadora. Nada surpreendente, diria previsível. Mas não se deve brincar com metáforas, li isso em algum livro. Então lembro a mim mesmo de que não é ciência, nunca foi. Não vou caber em fórmulas. Maquininha inútil. Eu falo é de coisas maiores, de palavras, de palavras tão proibidas que nem palavras ousam nomear. Coisa complexa. A chuva cai. Ouço atento. Bonito e real, uma vez que não estou usando hipérbole. Nem estou usando nada. A inquietude vem desnuda, sem adereços. 00:27, a cabeça dói. Cedo, mas tarde. Tarde para muitas coisas. Tarde para ser 00:26, tarde para... tic tac, lá se vão so dias.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

É amor, esse barulho infernal

Atenção a tuas vírgulas; não seria de bom grando que existisse qualquer sargaço emaranhado à tua interpretação. E revise, um por um, os teus advérbios. Não seria produtivo que algum équivoco tomasse lugar à ocorrência de tamanho modo e intensidade: vagarosamente, poeticamente minha língua em teu pescoço, investigando o oriçar dos teus pelos como reação automática ao toque quente da minha saliva. Dispa-te com abstração, para que o teu gosto seja concreto. Gosto de terra. Gosto de pó. O que torna interessante esse amor poético é a anarquia com que as palavras se rebelam contra o peso que trazem os termos, profundamente dramáticos e enfadonhos. Amor e poesia são almas livres da natureza. Voam sem pedir permissão e pouco se importam caso desabriguem e destronem da imponência maestral o que é dito como sensato e moral. Amor é desarranjo. Violino estraçalhado pela ímpeto da fúria. Equilibra-se ao convívio das boas maneiras e exatidões plenas, dos números. Números: coisa imprecisa. Você não entende. Me olha com essa cara boba dizendo que as sinapses desligam à medida que o sono vem. Olha pra mim antes que as tuas pálpebras fechem, antes que a luz do sono interfira na tua tênue lucidez. Tu és como uma criança cheia de volúpia, mas que pede silêncio quando é hora de dormir. Mas antes que teu mundo encontre o horizonte de morfeu, escute: é amor, esse barulho infernal. E não há recanto nos sonhos, não. Amor é coisa surreal e está para fora na mesma proporção que está para dentro. Fluxo contínuo. Não balbucie. Não Fuja. Crianças não devem temer.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Fragmento - A voz de um leão

- Acordai, bela moça cujos cabelos são medusas a esses olhos que vasculham, calejados, as entradas de vossas elétricas ribeiras. Vede como o sol brilha a vossa espera e desenha sombras no borbado difuso de vosso destino. Vede.
- Como sombras que se dissipam, o que é claro se transforma em turvo e minha visão, embaçada em fosco veneno, confunde vosso olho, senhor, que fala-me e penetra-me as entranhas como punhais que anseiam o meu sangue, gota a gota, como por necessidade dessa épica ânsia que vos consome em rajadas de som e fúria.
- Não ouseis vós pensar que minha sede do vosso corpo vos retira o sopro imaculado da pureza pela qual foi concebida a vossa alma, pois sois vós um lírio do qual as pétalas me banho em noites de murmúrio, mas percebei vós que é dessa sede a razão pela qual roubo vosso sonho como um ladrão de pensamentos para que esteja cravejado tão quieto no silêncio do vosso sono.
- Sabeis que não é correta ,a quietude, sabeis! Negais a verdade pois tendes medo de descobrir que o verdadeiro amor se esconde nas entrelinhas da loucura. Tendes medo de que o amor tome o lugar da espada e a guerra mude seus rumos. Tendes medo de que o mundo saia dos trilhos e vosso coração crie um novo modo para que giremos desconexos à qualquer eixo.
- Verdades ásperas saem de vossos doces lábios e dilaceram-me com intensidade mesmo maior que minha mais feroz batalha e disso bem sabeis. Entendei vós que é na quietude de nossas almas que o mais nobre veneno se dissipa na terra fértil para que dele nasçam resquícios de um amor o qual devemos regar com água límpida e silêncio. Esta coisa, o amor, necessita de calma, motivo pelo qual é cultivado sempre em meio aos campos onde a relva não molesta o fruto em sua raíz.
- Não pode haver calma no coração de um leão. Os espaços vazios serão preenchidos com luz e som e cor... olhai o céu. Levantai. Percebei como brilha, o sol. Há inquietude mesmo em sistemas que obedecem à órbita, e vós sois livre, então vos inquietai para o amor que, em um sopro de vida, penetra em tuas narinas como que desperta o desmoronar de pedras inertes para que fluam como o rio que passa por debaixo do carvalho ancião.
- Beijai minha boca sedenta para que o medo em meu coração aumente, portanto, de modo a abalar a inércia de minha quietude. Mostrai-me o frenesí de vossa alma selvagem.
- Fechai vossos olhos reticentes. Senti o ácido percorrer vossos poros.
- Queima-me as veias, vosso ácido. Como que...
- Calai-vós.
- Como que...
- Sabeis.
- Amor de leão.
- Vossa alma ruge [...]

domingo, 27 de dezembro de 2009

Frenesí.

Orfélia entra na sala principal em passos amplos e sem sincronia. Seus olhos vasculham o ambiente como quem procura enxergar a essência das coisas, a pele por detrás da pele. Desespera-se ao perceber que alma é coisa volátil e, caso a a moradia do espírito seja fraca, a essência se esvai, deixando tão somente a casca ornamentada de heróicos passados e brados feitos. Seu olhos fotografam as máscaras que riem e gesticulam na sala de estar, ao mesmo tempo em que questiona o modo pelo qual o movimento pode não ter vínculo com a vida, se são engrenagens programadas ou atos reflexos do tempo em que conteúdo e continente coexistiam. Sobe as escadas em um repente e, pisando forte nos degraus, assegura-se de que é preciso um pouco de barulho e frenesí para que que estrelas brilhantes despertem do confortável abrigo que é a falta de caos. Orfélia não permite que tudo que brilha se torne fosco, porque acredita na missão porque as coisas são coisas. Por isso o caos. Por isso o movimento é, porque tem de ser, o que vincula a vida às engrenagens. Apressa os passos e visualiza um grande muro branco em sua frente e percebe a ironia do momento, pois sabe que não há nada mais intransponível que o neutro. Então, com mãos frenéticas, desenha sobre a alva construção, em tinta óleo. Óleo que vem das mãos. Da pele suada. Do corpo moreno. Desenha uma arte abstrata, sem medidas plenas, nem rimas certas, uma vez que ninguém é capaz de ler uma pintura. Pinturas são dançadas e interpretadas pelo improviso. O antigo muro branco, portanto, cedeu de intransponível a permeável. Começa a circular o caos. O conteúdo retorna ao continente. E a vida continua a caminhar de forma pouco linear, porque existe uma missão para que vida seja vida. E ela é.