domingo, 27 de dezembro de 2009

Frenesí.

Orfélia entra na sala principal em passos amplos e sem sincronia. Seus olhos vasculham o ambiente como quem procura enxergar a essência das coisas, a pele por detrás da pele. Desespera-se ao perceber que alma é coisa volátil e, caso a a moradia do espírito seja fraca, a essência se esvai, deixando tão somente a casca ornamentada de heróicos passados e brados feitos. Seu olhos fotografam as máscaras que riem e gesticulam na sala de estar, ao mesmo tempo em que questiona o modo pelo qual o movimento pode não ter vínculo com a vida, se são engrenagens programadas ou atos reflexos do tempo em que conteúdo e continente coexistiam. Sobe as escadas em um repente e, pisando forte nos degraus, assegura-se de que é preciso um pouco de barulho e frenesí para que que estrelas brilhantes despertem do confortável abrigo que é a falta de caos. Orfélia não permite que tudo que brilha se torne fosco, porque acredita na missão porque as coisas são coisas. Por isso o caos. Por isso o movimento é, porque tem de ser, o que vincula a vida às engrenagens. Apressa os passos e visualiza um grande muro branco em sua frente e percebe a ironia do momento, pois sabe que não há nada mais intransponível que o neutro. Então, com mãos frenéticas, desenha sobre a alva construção, em tinta óleo. Óleo que vem das mãos. Da pele suada. Do corpo moreno. Desenha uma arte abstrata, sem medidas plenas, nem rimas certas, uma vez que ninguém é capaz de ler uma pintura. Pinturas são dançadas e interpretadas pelo improviso. O antigo muro branco, portanto, cedeu de intransponível a permeável. Começa a circular o caos. O conteúdo retorna ao continente. E a vida continua a caminhar de forma pouco linear, porque existe uma missão para que vida seja vida. E ela é.

2 comentários:

  1. adoroo o método 'sem pressão'
    HSUIAUHSHUAHUSHAUHIHUAI
    texto perfeito, como sempre!

    bjoo =*

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  2. Macabéa morreria de inveja da tua Orfélia!

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