domingo, 7 de março de 2010

00:27

Inquieto, vago pelo espaço. Toco a nuca, deslizo abruptamente os dedos pelas extremidades das orelhas enquanto miro a janela, distante e absorto. Dou passos que parecem não decifrar o comando cerebral: tortos, desrumados. Balanço as pernas e semicerro olhos e mãos, num princípio de desespero. Daí é quando decido que devo sentar e contar a mim mesmo essa estória, sem qualquer hipérbole literária ou efeito de dramaturgia. Sem ensaio. Começo falando sobre o tempo, que corre solto. Tic tac, e lá se vão os dias. Fogem como crianças malvadas. E prossigo com minhas necessidades urgentes, que, pelo caráter de urgentes, não podem ficar para trás. Megalomania de agora, um imediado imediato, irremediável. Balanço a perna. Estalo o pescoço. A luz do corredor brilha por debaixo da porta, sorrateira. Olho para o lado e me admira a ironia de haver uma calculadora. Nada surpreendente, diria previsível. Mas não se deve brincar com metáforas, li isso em algum livro. Então lembro a mim mesmo de que não é ciência, nunca foi. Não vou caber em fórmulas. Maquininha inútil. Eu falo é de coisas maiores, de palavras, de palavras tão proibidas que nem palavras ousam nomear. Coisa complexa. A chuva cai. Ouço atento. Bonito e real, uma vez que não estou usando hipérbole. Nem estou usando nada. A inquietude vem desnuda, sem adereços. 00:27, a cabeça dói. Cedo, mas tarde. Tarde para muitas coisas. Tarde para ser 00:26, tarde para... tic tac, lá se vão so dias.

4 comentários:

  1. "00:27, a cabeça dói. Cedo, mas tarde. Tarde para muitas coisas. Tarde para ser 00:26"

    Se eu te falar que esse texto veio em uma boa hora pra mim? São 7h25 e me sinto deste jeitinho

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  2. Sim Morais
    Já dizia cazuza
    'O tempo não pára'

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  3. Seu texto é hipérbole uahsuahsuahsuahs... quem não gosta de escrever e de ler blogs, acha que não é bom fazer um mixer de coisas com e sem nexo. Hoje eu estava pensando em fazer algo parecido, só que ainda mais radical. Escrever sem temer cara, é tarefa de ourives. Abraços!

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