terça-feira, 30 de março de 2010

Tua âncora

Sabe-se lá o que é que, de repete, faz engatar as engrenagens deste barco que é movido para longe do cáis. Tu sentas docemente entre as almas do teu refúgio e pensas que tua base é tão firme quando a decisão do teu coração em ficar. Mas não te esqueças que, em breve, entrarei por aquela porta como quem abre o teu destino, os teus mistérios e as tuas pernas. Tu serás minha novamente e a possessão do teu corpo é a certeza de que sou eu o domínio completo do peso da tua âncora. Entro agora e o a retiro em um sopro e tu voltas comigo para o meio do oceano, perdida. Lembra-te da sensação de como é estar distante do teu porto. Lembra-te de que minha segurança é segurar-te e assegurar-te o calor dos meus braços em meio a fúria de Poseidon. É aí, então, que domino o teu corpo cujos caminhos eu sei da cor e de cor, devido a tua constância. Sou eu quem mudo com a lua. Sou eu o marinheiro do tempo. Por isso é a ti que recorro quando as noites são solitárias e meus olhos, foscos, necessitam dos teus abrigos. Há possessão. Meu corpo sobreposto ao teu. Percebo que em ti combinam os tons avermelhados, que sobressaem à brancura da tua pele de seda, a qual não toco por partes pelo medo de calejar-te com a marca de meus rudes dedos. Olho-te enquanto não descubro o modo de possuir-te por inteiro, restando só a marca do teu vermelho que escorre como sangue e faz do meu corpo um sacrifício pagão da tua beleza, a deusa da minha idolatria. Semelhante ao absinto, bebo-te e sinto o quão quente é o teu gosto. Por isso escrevo meus versos em tua pele, em teus seios, em tua boca e me afogo em teu horizonte efervescente disfarçado em puro mármore. Depois que meu corpo se alimenta do teu, abraço-te forte e permito-te ir. Tu voltas, inerte, ao lançar da tua âncora. Voltas para morrer em tuas dúvidas, certa de que sentir - amar, o mar - é deveras imprudente. Tu sentarás novamente sob a sombra de tua falsa segurança, de tua falsa compreensão, de tua falsa certeza. Ficarás assim até que eu, marinheiro, volte. Afinal, sabe-se se lá o quê é que, de repente, faz engatar as engrenagens deste barco que é movido para longe do cáis.

3 comentários:

  1. Porra, tinha feito um comentário bem legal... aí a página travou e eu esqueci como tinha começado!
    ANYWAY, esse é o meu favorito! e não é só porque me sent aí dentro - mesmo que deslocada!
    ueahuehuae
    AMEI!

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  2. Amr!
    Adorei o texto *_*
    'Tu voltas, inerte, ao lançar da tua âncora. Voltas para morrer em tuas dúvidas, certa de que sentir - amar, o mar - é deveras imprudente. Tu sentarás novamente sob a sombra de tua falsa segurança, de tua falsa âncora, de tua falsa certeza. Ficarás assim até que eu, marinheiro, volte.'

    Lindo, Lindo..
    By Isabel

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  3. Obrigado pelo comentário no blog!

    Você também não sai perdendo em doçura nas palavras, é como se eu estivesse: (vou exagerar agora) Lendo uma blíblia, comendo ovos de páscoa logo com um kamasutra entre os dedos, sentado no sofá. O calor, o valor, e as definições das palavras definidas fazem seus textos belos e emoldurados de se ler! Muito bem apresentado.

    PS: Adorei o efeito de ciclo fechado no final, para com o início! Faz das sensações intermináveis e "intangíveis"

    Sinceros Abraços

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