sexta-feira, 2 de abril de 2010

Camomila

Eu vejo teus olhos brilharem enquanto tu brincas com as pernas. Tua expressão é obvia porque tua boca é muda. Tu me falas da verdade com a cor desses castanhos que pendem das oliveiras e cheiram como mel. És doce, mas intensa. E deixas claro para que em ti não só aja afago ou cicatriz. O toque, mesmo que leve, em tua pele deve durar e o brusco, mesmo que rude, deve passar como passam as águas de um rio. Ainda olhas para mim e dizes que desejas fugir. Queria eu aprender a língua do teu semblante e perguntar-te o porquê, mas teu desejo é urgente e tuas urgências são literais. É um adeus. Deixo-te partir, partido. De tão passado, particípio. Não sei para onde fostes, nem que idade tens. Tampouco se tu existes, menina dos olhos. Metáfora da vida. Envelheço enquanto espero que tu voltes. Sou duas décadas mais velho, apenas velho. Não coube experiência em meus moídos. Eis a verdade: torna-se experiente quando torna-se evoluído. Eis o erro: parei de evoluir quando percebi que o laço vermelho que levavas na cabeça não sai de um casulo para tranformar-se em ti. Laço. Vermelho. Só. Até que me acostumo com a presença da ausência. O único problema é que ela é cheia de obrigações e te força a cavar da terra infértil pra que nasça flor. Então eu cavo, cavo... e lá no fundo compreendo e compartilho de algum segredo que me é dito essencial : o que se aprende com a idade é que seguir pela contramão também é um modo de seguir. E o perder é uma etapa do encontrar. E o 'entregar-se loucamente' é a ironia para o ' prender-se ao chão '. Então tu caminhas rumo ao horizonte para descer ou subir esta e aquelas ladeiras. Caminhas só. Perdida. Louca. Entregue. Pela contramão. Os carros vão passar e a luz dos faróis vão cegar teus olhos, e são muitas luzes que andam de par em par. Mas ainda não é o teu farol. A essa altura tu não sabes mais o que é norte ou sul. Presumo que jamais soubestes. Pouco importa agora. Qualquer direção servirá para ti, que não sabe aonde ir. Qualquer calor será fogueira e qualquer afago será amor de pai. Mas tu não julgas nem ousas preferir. Tu segues porque, dos ensinamentos que te deram, o único que aprendestes foi andar. Tiro minha cabeça da cova infértil e sinto as décadas regredindo em meu corpo. É o entendimento dos caminhos tortuosos e do fluxo inevitável da vida, que é dinâmica. Queria que estivesses aqui. Vê: da fossa, flores.

7 comentários:

  1. NO WORDS TO DESCRIBE WHAT IM FEELING NOW!
    Tu é foda, manolo

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  2. quee coiisa mais linda! sou tão intensa :O

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  3. NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSSA!
    morri amor.
    Lindo, lindo, lindo ..
    Ass: Isabel

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  4. 'Até que me acostumo com a presença da ausência.'
    Iago e seus textos profundos e dignos de um escritor foda.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Parabéns!!!! Belíssimo texto, Iago!
    Beijos e abraços. ;-)
    Sonimar Ribeiro Siqueira.

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  7. Mudei algumas coisas no blog (tipo tudo) dai eu desapareci da sua lista mas não do blogger!

    É só me add novamente:

    www.signomaca.blogspot.com

    Vlw!

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